Ao ouvir uma reportagem da RTP play enviada por um amigo, não me surpreendeu o seu conteúdo, só que não tinha noção da dimensão do problema. Trata-se do abandono maciço da população ativa são-tomense, nesses últimos quatro anos, em direção a Portugal.

Na reportagem que cita o Instituto Nacional de Estatística de Portugal, nos últimos quatro anos chegaram a Portugal, proveniente de São Tomé e Príncipe mais de 45 mil são-tomenses. Esse número representa cerca de 15% da população do Pais.

Como é obvio, a estatística representa apenas o número de são-tomenses que entraram em Portugal e não está incluído a saída para outras paragens.

Por isso é que não seria exagero qualificar essa saída maciça da população são-tomense de «êxodo», tendo em conta que o número quase que quadruplicou nos últimos quatro anos, uma situação sem precedente desde a independência de São Tomé e Príncipe.

Mas uma questão importante que não foi abordada na reportagem é o impacto que a saída massiva da população ativa tem tido na vida económica e social do Pais, análise que, obviamente, deve ser feita pelas autoridades são-tomenses.

Isto acontece devido a falta de expectativa da população jovem, por motivo da degradação constante da economia, que tem resultado na falta de emprego ou empregos mal remunerados que não suportam o persistente alto custo de vida que se tem verificado nesses últimos tempos.

Em consequência disso, ao nível das instituições do Estado começam-se a verificar a falta de profissionais especializados como: professores, médicos, enfermeiros, engenheiros, funcionários administrativos de topo, etc. O impacto nota-se também nas pequenas e médias empresas, com a falta de mão de obra especializada, como: pedreiros, carpinteiros, serralheiros, bate-chapas, pintores autos e de construção civil, serralheiros, mecânicos, jardineiros, agricultores, empregadas domésticas, etc.

Constou-me que tem aparecido no Pais recrutadores vindos de Portugal para contratar técnicos experientes em diversos domínios de atividade laboral, tendo em conta que esse fenómeno também se verifica em Portugal noutra dimensão, devido a saída de pessoal especializado, para outros Países da Europa onde os salários e as condições de trabalho são mais apetecíveis e vantajosas. O modus operandi desse recrutamento tem sido como se segue: as empresas oferecem bolsas como se tratasse de formação profissional de curta duração. Depois de avaliar a competência dos beneficiários, acabam por contratar ou não os técnicos.

Por essa razão, o Pais fica desprovido desses técnicos que muita falta tem feito nos últimos tempos e tem tornado muito difícil o dia a dia da vida do cidadão. Por isso é que me estranha o facto das autoridades não estejam a dar a devida atenção a esse fenómeno.

Perante essa situação dramática, resultante do abandono do Pais de jovens em idade ativa e, tendo em conta o seu impacto na economia nacional; considerando ainda que, o Pais viveu há bem pouco tempo um período de campanha eleitoral para as eleições gerais; curiosamente, essa questão importante não foi aflorada nem debatida pelos Partidos Políticos concorrentes para se conhecer as suas propostas.

Espero que o novo Governo saído das eleições dê prioridade e a devida atenção a esse problema, começando por fazer um estudo de impacto dessa situação na economia do Pais e tomar as medidas que se impõem, a curto e a longo prazos, com vista a debelar a situação.

Por outro lado, sendo a estatística um instrumento indispensável de gestão de qualquer Governo, lamentavelmente nota-se da parte dos nossos dirigentes uma indiferença em relação a mesma. Nos seus pronunciamentos públicos em relação a ações a serem tomadas no âmbito económico e social, geralmente não citam dados estatísticos fornecidos pela nossa Direção Nacional de Estatística para sustentar a sua decisão. É preciso ter em conta que sem estatística o Pais é governado no escuro. Se calhar é a explicação para muitos desequilíbrios na gestão da nossa economia ao longo desses anos todos.

Os dados estatísticos também são muito importantes para qualquer potencial investidor, pois, a primeira coisa que solicitam ao chegar ao Pais que pretendem investir são dados sobre a economia, assim como a situação social e laboral.

Por toda essa razão, a Direção Nacional de Estatística deve estar bem estruturada, com dados bem elaborados e atualizados e os publicitar com regularidade através dos órgãos de comunicação social, públicos e privados.

Essa postura dará ao Pais credibilidade, maior dignidade e sentido de organização, de modo a que não se fique surpreendido com a divulgação dos dados estatísticos sobre o nosso Pais através de órgãos de comunicação social estrangeiros, como aconteceu com o caso em epígrafe.

São Tomé, 5 de outubro de 2026
Fernando Simão
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